Estudo mostra que qualidade do descanso impacta bem-estar e desempenho

28/04/2026 | 0 comentários
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Em um cenário cada vez mais acelerado, aprender a descansar deixou de ser um luxo para se tornar uma necessidade. Um conjunto recente de estudos divulgado pela Harvard Business Review, com participação de pesquisadores de universidades dos Estados Unidos e da Europa, aponta que o problema não está apenas na falta de descanso, mas na forma como ele é vivido.

Ao analisar mais de 2,4 mil profissionais em 11 estudos de campo, os pesquisadores identificaram que pessoas que adotam uma postura mais intencional no tempo livre (organizando atividades prazerosas, cultivando relações ou aprendendo algo novo) apresentam níveis mais elevados de bem-estar, energia, bom humor e senso de propósito, além de maior conexão social.

Na prática, o descanso vai muito além de parar o corpo. “Significa conseguir se desligar e desconectar, tanto fisicamente quanto mentalmente, permitindo que o organismo saia do estado de alerta”, explica a psicóloga Gabriela Mansano Ferreira, da Seção de Talentos e Desenvolvimento de Pessoal do Sesc e Senac Goiás.

Essa desconexão, no entanto, nem sempre é simples. Segundo a especialista, um dos principais entraves é que muitas pessoas sequer sabem como descansar. “Principalmente por não saberem como, muitos buscam atividades que não proporcionam relaxamento real. Além disso, para muitos, o descanso ainda não é visto como uma prioridade”, afirma.

A dificuldade em descansar tem relação direta com a cultura da produtividade, que valoriza o fazer constante. “A cultura da produtividade faz o descanso ser visto como perda de tempo. As pessoas associam seu valor ao estar sempre produzindo e sentem culpa quando param, como se o descanso precisasse ser ‘merecido’”, destaca Mansano.

Esse sentimento é familiar para a engenheira civil Sara Santana, de 36 anos, que atua na área de suprimentos em obras de infraestrutura. Com uma rotina intensa, ela relata que desacelerar ainda é um desafio. “Minha rotina é agitada, com muitas demandas simultâneas e necessidade de tomada de decisão constante. Trabalho com prazos, negociação e resolução de problemas o tempo todo, o que exige atenção contínua”, conta.

Assim, mesmo quando o tempo livre aparece, nem sempre ele é vivido por Sara de forma plena. “Muitas vezes o corpo até para, mas a mente continua ativa, pensando em pendências ou no que ainda precisa ser resolvido. Isso dificulta estar realmente presente no momento de descanso”, relata.

Um dos equívocos mais comuns, segundo Mansano, é confundir descanso com distração. Ficar deitado mexendo no celular, por exemplo, não garante recuperação mental. “Isso é muito comum. Na prática clínica, muitos relatam que ‘descansam’ deitados, mexendo no celular. Apesar de ajudar na desconexão de algumas preocupações, o uso de telas mantém a mente estimulada e conectada a novos conteúdos, o que dificulta o relaxamento real. Por isso, embora distraia, não é a forma mais eficaz de descanso”, explica.

A diferença está na qualidade da pausa. A psicóloga destaca que um descanso efetivo é aquele que promove sensação de leveza e renovação, enquanto o chamado “descanso improdutivo” pode gerar ainda mais cansaço e frustração.

Ignorar a necessidade de descanso pode trazer consequências importantes. “Negligenciar o descanso pode levar ao esgotamento mental, à dificuldade de concentração, à irritabilidade e à queda no bem-estar. Existe, sim, uma relação direta com quadros como ansiedade, estresse crônico e burnout, já que a mente não tem tempo suficiente para se recuperar das demandas do dia a dia”, alerta Mansano.

A engenheira Sara reconhece esses impactos na própria rotina: “Hoje eu entendo que nem sempre descanso de forma completa. Eu até durmo, mas não descanso de verdade. Já tentei associar isso a fatores como vitaminas, hidratação ou rotina, mas percebo que, na prática, o principal fator é o estresse acumulado. Com o tempo, essa conta acaba chegando, e tenho buscado ajustar isso.”

Ela também admite que a culpa ainda aparece. “Principalmente quando sei que ainda existem coisas pendentes. É um processo de aprendizado entender que descanso também faz parte da produtividade”, revela.

Incluir o descanso na rotina não exige mudanças radicais, mas sim constância. A psicóloga orienta começar com pequenas pausas ao longo do dia e atividades simples que favoreçam o relaxamento. “Enxergar o descanso como parte da própria produtividade é fundamental. Começar com pequenas pausas, concentrar-se nelas e permitir-se ter momentos e atividades simples que promovam o relaxamento ajuda a reduzir a culpa e torna o hábito mais natural”, afirma Mansano.

Entre as práticas recomendadas estão leitura, contato com a natureza, exercícios leves, momentos de silêncio e a redução do uso de telas, especialmente antes de dormir. Para Sara, esse processo ainda está em construção, mas já é uma prioridade. “Hoje eu entendo a importância de criar momentos intencionais de pausa e de atividades que ajudem a liberar o estresse, antes que isso se transforme em algo maior. Para mim, esse equilíbrio não é um luxo, é uma necessidade.”

 

 

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